

Eram dez e meia da manhã, a fila fora do Consulado já era perceptível. Dezenas de pessoas das mais diversas profissões e origens. Todas com suas próprias expectativas de viagem e interesses. Alguns estudantes na fila, um sargento fardado do exército brasileiro, uma senhorinha que viajaria pela primeira vez de avião para Nova Iorque sendo bancada pela filha. Enfim, pessoas diferentes mas com semblantes parecidos, a tensão tomava conta da fila ao meio da orientação das pessoas do consulado na separação do passaporte e dos documentos mais importantes. Nesse clima de tensão, o Sargento teve a noticia que havia esquecido um documento, pensando estar em seu quartel aumentou seu tom de voz com a menina que estava ali somente pra ajudar.
Despeço-me do meu pai, a entrada sozinha é obrigatória para maiores de dezoito anos. E, finalmente, entro no consulado. Passo pelo detector de metais e minha pasta com os documentos pelo Raio X. Felizmente nada perigoso entre meus pertences, sigo meu caminho para buscar minha senha. Número 603. Havia pelo menos umas cinqüentas pessoas na minha frente, a tensão permaneceria por alguns instantes. Abro meu livro de José de Alencar, folheio algumas páginas, não consigo me concentrar. Pego o folheto distribuído e vejo meus direitos como “não-imigrante”. Na teoria serei magicamente bem recebido em Los Angeles. Penso por um instante nos milhares de brasileiros que possuem problemas com o governo norte americano. O suor escorre pelo meu rosto, não pela refrigeração. Confesso que o ambiente estava bem climatizado, mas a tensão continua. Pego novamente meu livro do romântico José de Alencar. Para que tantos advérbios e adjetivos? Eu já havia entendido que Aurélia era uma moça muito rica, a obra prima não são os milhares de detalhes explicados detalhadamente (perdoe a redundância, ainda estou no espírito romântico), mas, sobretudo, a história.
SENHAS: 607 591 603 600 598
E de súbito escuto meu número ser chamado, volto a realidade. Esqueço-me totalmente da triste sina de Aurélia na escolha de seu pretendente e volto para a tensão. Sou conduzido para uma nova sala junto com seiscentos e sete, quinhentos e noventa e um, seiscentos e quinhentos e noventa e oito. Meus amigos sem nomes, numerados mas que vivem a mesma cena de tensão da entrada. Nossas digitais são retiradas. Nesse momento sorrio com a pronuncia da palavra " direita" da senhora do consulado, e sou conduzido para mais uma nova fila, a das entrevistas.
Esse é o momento onde você começa suar como tivesse jogada uma partida de futebol inteira com prorrogação. Sua perna treme. Você começa a escutar a perguntas dos entrevistadores através do vidro com o microfone para as outras pessoas – sim não há privacidade, todos sabem para onde você vai e o que vai fazer. As perguntas feitas a outras pessoas são sendo respondidas mentalmente com suas informações. E chegada a hora, o dialogo é rápido, mas a duração é quase eterna:
Aquele momento mágico no qual você finalmente confirma que irá viajar, e que tudo deu certo. Confesso que sai do Consulado meio zonzo,meio atoardo ainda com medo de ser negado. Ainda tive que ouvir do lado de fora as reclamações do Sargento que havia gritado com a menina que teve o visto para sua inteira negado. Isso me fez lembrar os avisos do meu pai: “Pedro, a conduta dentro e fora do Consulado contam muito” Realmente, ele estava certo. Fico com pena da família dele, mas acho que ele poderia ter sido mais cortês com a moça que o tentava ajudar. O estudante e a senhorinha também tiveram os vistos concedidos, fiquei feliz por eles também. Ainda meio alto, fiz meu pai ir nos correios pagar a taxa do sedex para mim. Estava sem pernas e sem raciocínio para fazê-lo. Em breve, receberei meu passaporte com meu visto em casa, e a partir daí é só arrumar as malas. E como diria Lulu Santos:
Garota , eu vou para Califórnia ♪
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